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Por Alex Sandro Gomes

Considerando que boa parte da experiência de aprendizagem na educação básica está centrada na construção de habilidades para lidar com conceitos científicos, das mais diversas áreas, um aspecto tem chamado minha atenção: a apresentação direta das definições de conceitos, prontos para memorização. Esse movimento é observado de forma óbvia nos livros e parece uma abordagem plena para o ensino desses conceitos, mas não é. Tal movimento é apenas uma pequena parte do processo de aprendizagem. Eu diria que é a parte mais superficial dessa aprendizagem.

Quando se ‘ensina’ uma definição de conceito a uma criança de 8 ou 9 anos, a mesma que pensadores levaram anos, décadas ou séculos para concluir, a criança não aprende o conceito. Ela apenas permanece com a definição na memória por algum tempo. Isso não implica, portanto, que a criança saberá resolver um problema concreto propondo hipóteses a partir dessa definição. Aprender, do ponto de vista da competência, significa ser capaz de usar em sua vida os conceitos para resolver problemas.

O problema nesse paradigma é que, além de não contribuir com uma aprendizagem duradoura, faz com que os alunos associem o ‘fazer científico’ a uma memorização de fatos desvinculado do exercício contínuo do raciocínio científico. Como consequência, os alunos perdem o gosto pelas disciplinas científicas, prejudicam suas habilidades criativas, de inovação e a curiosidade natural e necessária ao fazer científico. Diminuem-se as chances de termos mais jovens inclinados às carreiras científicas.

É um enorme equívoco manter no ensino básico, em pleno século XXI, um modelo baseado na memorização. Esse paradigma já era criticado no início no século XX com a metafórica denominação de ‘Funil de Nuremberg’. Paulo Freire adota a expressão ‘educação bancária’ para designar esse paradigma de ensino e aprendizagem.

O Método Científico tem origem ainda com Descartes e foi desenvolvido por Issac Newton. Em essência, representa uma forma de raciocínio eficaz à proposição de respostas a problemas para os quais não sabemos a resposta (MANGUEL, 2015). Todos os ramos do conhecimento humano adotam esse tipo de raciocínio, respeitando a natureza do conhecimento que está sendo estudado. Estamos falando de uma recente e muito efetiva tradição cultural humana que deveria ser transmitida de forma integral com o passar dos anos escolares.

Apesar da longa tradição do pensamento científico nas culturas orientais e ocidentais, o incentivo a esse tipo de raciocínio nas escolas tende a priorizar a apresentação dos resultados obtidos em detrimento ao desenvolvimento de habilidades e competências associadas para serem usadas sempre que necessário. No início da educação básica é possível observar que as crianças estão mais abertas a esse desenvolvimento.

Alunos, Educação e Perguntas

É natural das crianças o comportamento ‘errático’ ao explorar o mundo. É natural das crianças fazer perguntas curiosas. Não é uma forma natural de aprendizagem receber passivamente fatos científicos que não se consegue alcançar (ver filme La Educación Prohibida). As crianças logo percebem que há duas ‘ciências’ na escola: aquela que lhes exige memorizar conceitos e definições e outra — que eles gostam mais — aquela que lhes é apresentada por meio de experimentos criativos e divertidos.

Ensinar conceitos científicos aos jovens é desenvolver competências cognitivas relacionadas ao raciocínio hipotético-dedutivo. Isso, em parte, está associado à memorização de conceitos estabelecidos. Quando se limita o ensino (e a avaliação) de conceitos científicos à memorização e à uma prova, baseia-se o paradigma de ensino e aprendizagem apenas na memorização de definições. Isso em nada ajuda no desenvolvimento do raciocínio supra-referido.

O uso de tecnologias pode em muito contribuir com um ensino de conceitos científicos, pois as mesmas ajudam a realizar experimentos reais ou simulados cujo foco é o desenvolvimento das habilidades de raciocínio. Situações de aprendizagem que envolvem a realização de experimentos, seguidos de adequada sistematização, demandam o uso coordenado de tecnologias variadas.

Teste, por exemplo, pedir para seus alunos gravarem vídeos do que fazem e que expliquem os resultados de um experimento, explicitando suas conceitualizações incompletas e em construção. Confronte essas versões idiossincráticas de forma branda respeitando cada uma das versões em processo de construção.

Escute! Brinque! Descubra a beleza do processo de construção pelo qual passam seus alunos. É melhor para a criança avançar ao seu ritmo do que dizer que ‘aprendeu’ por que memorizou definições e as consegue reproduzir numa avaliação somativa. Sabemos que ela não sabe o conceito de forma plena, apenas reproduz uma definição.

Dica

O Manual do Mundo é um excelente canal de difusão da Ciência para crianças e jovens e pode inspirar muitas atividades criativas para despertar e ajudar a desenvolver o pensamento científico das crianças em escolas.

Referências:

MANGUEL, Alberto. Curiosity. Yale University Press, 2015. http://yalepress.yale.edu/book.asp?isbn=9780300184785

 


Alex Sandro Gomes

Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Paris é professor no Centro de Informática da UFPE e líder do grupo de pesquisa Ciências Cognitivas e Tecnologia Educacional.

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