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CONTAR HISTÓRIAS

 

Desde que o primeiro grupo de pessoas se reuniu ao redor de uma fogueira, sob um céu escuro e estrelado, a humanidade transmite suas histórias. Muito antes da escrita, do teatro e até da Netflix, a tradição oral já persistia através das gerações. Mas o que tudo isso pode nos ensinar sobre Educação?

É possível que você ainda não tenha visto minha carinha por aqui, então vale a pena uma apresentação: sou a Fernanda Castro, doutoranda em Ciência da Computação e muito orgulhosa de fazer parte do time ProfLab. Ao longo deste ano, estarei ministrando um curso bem bacana sobre…escrita criativa. Meio inesperado, né? Mas já te explico.

Livros sempre foram uma constante em minha vida. Aprendi a ler ainda muito cedo, antes mesmo de ir pra escola, e boa parte do meu tempo foi gasta em mundos de fantasia. Escolhi Computação pelo meu apreço à tecnologia e ciências exatas, mas mesmo na faculdade os livros nunca me abandonaram. A arte de contar histórias era o combustível que verdadeiramente me movia.

Sou tão apaixonada pelo tema que criei um blog sobre literatura, lá no comecinho de 2015. E, conforme eu conciliava essa minha “vida dupla” e ganhava mais vivência no mundo da escrita, comecei a perceber coisas interessantes. Percebi, por exemplo, que a habilidade de contar histórias me ajudava a transmitir conhecimentos no âmbito profissional. Quanto melhor eu apresentava minhas ideias, mais fácil elas eram absorvidas por colegas e alunos. E, principalmente, quanto melhores eram as histórias que eu lia, mais coisas eu aprendia. Coisas que não necessariamente eram úteis para o momento (com Jane Austen, aprendi todas as regras de etiqueta da sociedade londrina), mas que ficavam muito mais registradas na minha mente do que os assuntos que eu de fato precisava estudar.

Meus livros infantis favoritos foram aqueles que não possuíam um viés didático explícito. Eram livros que me deslumbravam, me desafiavam e dialogavam comigo no campo sentimental. Na escola, lembro poucos detalhes do período regencial brasileiro (e olha que eu amava História!) mas posso praticamente recitar o que aconteceu na Batalha de Trafalgar, entre França e Espanha. Culpa de um livrinho chamado O Dragão de Sua Majestade, que traz uma versão da Era Napoleônica onde os principais instrumentos de guerra eram…bem, dragões. 🙂

Mas por que isso acontece? O que é que estava por trás desse fenômeno? E, uma pergunta também importante, como eu poderia unir esses dois aspectos da minha vida numa coisa só? Bem…deixa eu ver se consigo te dar uma pista:

Nosso contato inicial com o mundo das histórias surge normalmente ainda na infância, seja através dos contos de fadas, das histórias em quadrinhos ou mesmo de ouvir, assim meio sem querer entre uma brincadeira e outra, os “causos” confidenciados pelos adultos.

Ursula Le Guin, consagrada autora de ficção científica e fantasia, afirmou em uma entrevista que escrevia tão bem sobre magos porque fora criada por um. Seu pai era antropólogo, sua mãe, escritora. A família recebia dezenas de visitas, gente das mais variadas origens e profissões entre pesquisadores, filósofos e artistas. A pequena Ursula, autorizada a permanecer entre os adultos durante estas reuniões, foi então absorvendo parte das conversas, dos dilemas e das questões. Ursula cresceu em meio às histórias. Mas voltaremos a ela mais tarde.

Dentre os autores de livros infantis, Maurice Sendak é um dos grandes destaques. Suas histórias sempre continham um componente fantástico, obscuro, tratando de temas por vezes controversos, como o abandono, o assassinato ou o egoísmo. Historinhas infantis de arrepiar os cabelos dos pais mais incautos.

Porém, Sendak defendia que não existe algo como “um tema inapropriado para crianças”, uma vez que elas compreendem de tudo, a seu próprio modo. O que existe são formas diferentes de abordar estes temas, respeitando as necessidades de cada faixa etária. Nos filmes da Pixar, por exemplo, é possível observar temáticas difíceis sendo abordadas em diferentes camadas de significado. O mesmo assunto será absorvido por adultos e crianças, mas de maneiras diferentes. Pessoalmente, gosto muito dessa ideia, que é algo comum nos livros de fantasia voltados ao público jovem (sobretudo nos mais antigos).

De fato, Regina Zilberman comenta em sua pesquisa sobre a diferença entre os livros infantis escritos por educadores e aqueles escritos por autores1. A pesquisadora os diferencia dizendo que a primeira abordagem é prejudicada por seu pragmatismo, que educa mas não conquista afeto do público, enquanto a segunda ignora o potencial da sala de aula. Eu, enquanto tracinha devoradora de livros desde a mais tenra idade, fico um pouco preocupada com esse cenário.

Vamos voltar a falar sobre a Ursula Le Guin? Em um ensaio intitulado “Uma Mensagem sobre Mensagens”, a autora mostra-se incomodada com os jornalistas que perguntam sobre qual é a mensagem didática que determinado livro infantil deseja transmitir. Diz ela:

“Como autora de ficção, eu não falo em mensagens. Eu falo em histórias. A noção de que uma história possui uma mensagem assume que ela pode ser reduzida a um punhado de palavras abstratas. Não estou dizendo que a ficção não possua significado ou utilidade. Muito longe disso. Acredito que o storytelling é uma das ferramentas mais úteis para alcançar significado. Mas isso não é o mesmo que ter uma mensagem. Isso é porque uma obra de arte é compreendida não só pela mente, mas pelas emoções e pelo corpo em si. Eu desejo que, ao invés de procurarmos uma mensagem quando estivermos lendo uma história, nós pudéssemos pensar: Aqui está uma porta para um novo mundo. O que vou encontrar depois dela?’”

Um estudo conduzido por Deena Weisberg, na Universidade da Pensilvânia2, encontrou indícios de que crianças aprendem melhor os assuntos expostos em sala de aula quando uma abordagem baseada em histórias de fantasia é utilizada. Segundo os pesquisadores, a fantasia permite que os alunos coloquem os conceitos em perspectiva, aplicando-os em um mundo de regras mais flexíveis, testando-os e relativizando os resultados. Ou, como já dizia Dr. Seuss: a fantasia é um ingrediente necessário, pois é um modo de olhar a vida através do lado errado de um telescópio.

A ficção especulativa, gênero que abarca a fantasia, o sci-fi e todos os subgêneros cinzentos ao seu redor, realmente possui esta característica de colocar as coisas sob perspectiva. Ao extrapolar a jornada do herói e do dragão, estamos conversando sobre os nossos próprios desafios, sobre nossas fraquezas. Até mesmo as mitologias são histórias alegóricas para explicar e conceituar o mundo. A pesquisa de Weisberg amarra-se bem ao que diz Le Guin: podemos usar a fantasia como um cenário de exploração para aprendizados mais pessoais e significativos.

Desse modo, podemos utilizar histórias não como um material didático em si, mas como uma abordagem para gerar oportunidades de aprendizado. Um aprendizado com empatia, que seja duradouro e que ultrapasse o campo intelectual. Que chegue até as emoções. Passar conhecimento com significado. Quando apresentamos um mundo fantástico, ainda que ele seja bem similar à realidade, abrimos portas para que novas perspectivas e problemáticas apareçam. Transformamos o ordinário em algo inesquecível.

E calma, não estou sugerindo aqui que a gente saia queimando livros didáticos e comece imediatamente a ler O Senhor dos Anéis. Não é por aí. Mas acho que a habilidade de contar histórias, trabalhar problemáticas de forma lúdica e dominar as técnicas de escrita criativa podem sim ser ferramentas importantes na criação de experiências educacionais mais significativas. Contar histórias, afinal, está infiltrado em nosso DNA. Vamos abrir essas portas e utilizá-las da melhor maneira possível.

via GIPHY

Bateu a curiosidade e quer saber mais sobre essa história de histórias? Cola aqui com a gente e fique de olho nas novidades. 😉
 

  1. ZILBERMAN,​ ​R.​ ​(2015)​. A Literatura Infantil na Escola. Global Editora.
  2. WEISBERG et al. (2015)​. Shovels and swords: How realistic and fantastical themes affect children’s word learning. Cognitive Development, Volume 35. p 1-14.

Fernanda Castro

Escritora, graduada, mestra e doutoranda em Ciência da Computação.

1 comentário

Alex Sandro Gomes · 27 de março de 2018 às 21:53

Muito bom, Fernanda!

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