Por Alex Sandro Gomes

Acredito que os objetos que usamos no dia a dia carregam consigo uma aura de significados. Quanto mais antigos, a depender de sua origem, mais densa e poderosa é essa aura. Certo dia estava em sala de aula e os alunos estavam embalados em uma construtiva discussão. Decidi fazer um desenho no quadro da sala. Enquanto me dirigia ao quadro, um silêncio solene foi se impondo ao que estava acontecendo de melhor naquele momento: o diálogo!

Desde então passei a analisar o significado do quadro na sala de aula. Sua história remonta a pelo menos dois séculos. Muito de nosso imaginário coletivo sobre os espaços da escola é influenciado por esse objeto. Peça para alguém desenhar uma sala de aula e o resultado quase sempre começa com a inserção de um quadro na cena.

Na virada do século XIX para o século XX todo bom professor tinha de ter um em sua sala. E os melhores professores eram aqueles que mais usavam o giz (BASTOS, 2005). A princípio era prescrito para mediar a aprendizagem da escrita, das primeiras letras, no processo de alfabetização. Mas, parece que esse uso foi estendido ao longo do tempo e ‘esquecemos’ o quadro na sala de aula.

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Narciso (1594-1596), por Caravaggio.

Pois bem, ele continua sendo utilizado ainda hoje em todas as áreas do conhecimento. Sempre que tentamos usufruir de uma tecnologia nova ele participa da ‘concorrência’ e vem levando a melhor desde sempre. Talvez a sua longevidade nesse espaço o torne um objeto quase inconteste na prática docente. Claro que há muita relação desse objeto com as relações de poder. Funciona como um palco, assim como para um músico erudito ou um bailarino. Ou, quem sabe, seria ele o espelho de água do ‘Narciso’ de Caravaggio (DA CUNHA, 2010).

E se retirássemos os quadros das salas de aula?!

Sim, retirar mesmo e deixar o lugar vazio. Que efeito isso causaria? Deixar a sala apenas com lugares para sentar e dialogar. Retirar da sala o objeto que parece ter sido feito para que apenas o professor, rotulado como ‘o bom professor’, use?

Para as crianças esse material é acessível apenas nos intervalos de aula, em rodas de brincadeiras. O ‘ir ao quadro’ em momento de aula desperta muitos sentimentos: positivos e negativos. O que seria da aula se esse objeto não estivesse na sala?

Como num processo analítico, para se promover mudança real em uma estrutura é necessário revolver a estrutura anterior. Parece que de uma forma geral as sociedades ainda não promoveram a catarse do que os tempos de escola dos séculos XIX e XX estruturaram em nossos modelos mentais. E as lições do últimos anos têm mostrado que há muitas outras estruturas e objetos estruturantes que precisam ser repensados antes que novos sejam adotados. Vamos começar o desmonte pelos quadros?

Narciso, d’ après Caravaggio Vik Muniz ( Brasil, 1961)

Narciso, d’ après Caravaggio Vik Muniz (Brasil, 1961)

Referências:
BASTOS, Maria Helena Camara. Do quadro-negro à lousa digital: a história de um dispositivo escolar. Cadernos de História da Educação, v. 4, 2008.
DA CUNHA, Thiago Costa Matos Carneiro. Que Narciso é esse?. Revista Mal Estar e Subjetividade, v. 8, n. 1, 2008.

 

Categorias: Blog

Alex Sandro Gomes

Doutor em Ciências da Educação pela Universidade de Paris é professor no Centro de Informática da UFPE e líder do grupo de pesquisa Ciências Cognitivas e Tecnologia Educacional.

1 comentário

Lya botler · 2 de julho de 2015 às 00:07

A proposito :tirar o quadro negro
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